a humanidade só será LIVRE, quando o último corrupto for enforcado nas tripas do derradeiro capitalista

23 de janeiro de 2012

Vamos imaginar

Desamores

Vamos imaginar Passos Coelho a contar tostões para ir à farmácia. Paulo Portas a perguntar o preço da carne e a ficar-se pelas asas de frango, já com cinco prestações da casa em atraso...


Nos subterrâneos deste Inverno empobrecido, vamos trocar os lugares.

Vamos imaginar Passos Coelho a contar tostões para ir à farmácia. Paulo Portas a perguntar o preço da carne e a ficar-se pelas asas de frango, já com cinco prestações da casa em atraso. Relvas na fila do rendimento social de inserção. Gaspar desempregado a almoçar em espaços de voluntariado de apoio aos sem abrigo. Penhoraram-lhe a casinha.
A cada medida que esta cambada toma mais vontade se tem de a imaginar a viver como aqueles a quem pagam. Imaginar o tipo do Pingo Doce sentadinho a uma caixa, muitas horas seguidas, aflitinho para ir à casa de banho e sem poder, porque a fila é infinita, a registar e ensacar mercadorias e no fim do mês a receber meia dúzia de euros e alguns produtos dados por ostensiva caridade.

Imaginar todos os membros do governo a viverem com o salário mínimo, a regressarem a casa, abatidos, num demorado e incompetente transporte público, cansados, montados na desesperança.
Vamos trocar de lugares. Vamos imaginar Américo Amorim a trabalhar nas minas, com o capacete adornado de lanterna, descendo de picareta em punho às profundezas da terra. Não, não era uma visita de circunstância, rápida e formal para a câmara televisiva. Era mesmo a bulir muitas horas sem ver a luz do sol. Todos os dias. Afinal o homem é um trabalhador.
Podemos também pôr Belmiro na construção civil a dar serventia a um pedreiro e a aquecer o almoço numa fogueira.
Imaginar esta gente a engolir os impropérios e as obscenidades cuspidas por entidades patronais menores e maiores e sentir a pele a arrepiar-se com medo do despedimento é um exercício absolutamente lúdico, saudável, e descompressor.
Nas horas de muito calor, alguma desta gente podia trabalhar a remendar estradas. As estradas camarárias do nosso país precisam muito de arranjo e manutenção. Mira Amaral podia colocar o alcatrão, enquanto Dias Loureiro carregava brita. Era uma parceria.

Nesta troca de lugares podemos pôr Catroga, já velhote, no papel de um reformado que faz biscates. A reforma. Não chega. Dois pares de ceroulas a protegerem-no do frio. Sem dinheiro para ligar o aquecedor. A eletricidade está muito cara.
Assunção Cristas a trabalhar num shopping, cumpriria horários escandalosos, para receber no fim do mês menos que o salário insignificante que a lei prescreve.
E a justíssima ministra da justiça seria uma trabalhadora da empresa a quem teria sido adjudicada a limpeza dos tribunais. Entraria às seis da manhã, limpava os corredores onde gente ansiosa passeará a partir das nove, aspiraria os gabinetes dos magistrados, as salas de audiências, os compartimentos destinados aos advogados, eclipsando-se depois de mansinho, quando os primeiros funcionários começassem a aparecer, assumindo a invisibilidade asséptica que estas funções sempre requerem. A bata com o logótipo da empresa assentar-lhe-ia a preceito.

O tipo da economia, o Álvaro, seria meio contínuo, meio segurança, de uma qualquer empresa privada. Auferiria à volta de quatrocentos e oitenta e cinco euritos. É bom. Apesar das varizes estaria sempre de pé, ligeiramente encurvado quando passassem os patrões. Trazia e levava recados, assegurando-se que tudo estava sob controlo. Faria cumprir, escrupulosamente, as indicações patronais. No fundo, não desempenharia funções muito diferentes daquelas que agora desempenha. A diferença era só na remuneração.
Vamos trocar de lugares a ver se gostam.
Portugal é um desamor europeu. Nesse desamor cabe tudo. O sobrolho carregado cheio de suspeições da UE ou do que dela sobra; o lixo condenatório das agências ou mercados ou lá o que é; o desplante das troikas em aparições televisivas.

Querem que este pedaço de terra onde vivem pessoas perca a configuração política e económica de país e se transforme numa coisa em forma de coisa nenhuma. Num espaço tristonho, deprimido e depressivo a tresandar a desgraça. Só a corja anda tão imperturbável como eufórica.
Por isso toma medidas supostamente irreversíveis num frenesim de urgências inadiáveis.
À medida que os dias nos vão pesando mais, o sorriso deles expande-se num turbilhão veemente. 

Os cortes fervilham. Cortes nos dias, nos anos, nos salários, nas almas, nos direitos. Viva a desbunda e o vale tudo.

Este é um governo genuína e assumidamente de direita.

A direita portuguesa tem muito ano de experiência no pêlo. Muito ano de prática sucessiva de pouca-vergonha. Muito ano de negócios protegidos pelo estado e pagos por todos nós. Muito ano de pilhagem, de bom viver, de ganância apadrinhada pelo poder. Muito ano de sentimentos de aço, de desprezo altivo, às vezes pio e caritativo, outras vezes boçal, a estoirar da alarvidade que a descompaixão explícita contém.

Mas sempre a mesma soberba e o mesmo desplante que lhe vem da convicção de que o mundo gira apenas para que tudo o que lhe diz respeito fique na mesma. A direita portuguesa é um monumento à agressão, à grosseria e à malandrice.

A sórdida direita portuguesa. Dói o desalmado desamor e a pantominice retórica.

Vamos trocar de lugares? Só a ver se gostam.

Por Alice Brito, Dirigente do Bloco de Esquerda

1 comentário:

José Rui Lopes disse...

Parabéns pelo texto. Não posso estar mais de acordo.

Trata-se de uma óptima caricatura que expõe a insensibilidade social da maioria dos nossos governantes, ultrapassando todos os limites do admissível.

Espero que não se importe que o divulgue aos meus familiares e amigos.